Quase sete anos depois, contudo, veio a confirmação de que nunca houve assalto, sequestro ou tortura, como havia sido alegado por Vanderley. Segundo a polícia e o Ministério Público do Estado (MP-BA), ele simulou o roubo e amputou a própria perna para receber indenizações que chegavam a R$ 1,5 milhão em caso de invalidez. Isso porque, seis semanas antes do suposto crime, ele contratou quatro seguros de vida e acidentes pessoais.
Essa tentativa de ‘golpe do seguro’ levou a uma condenação de dois anos de reclusão por estelionato. Trata-se de uma situação inédita na Justiça brasileira. Até então, houve casos em que a própria pessoa havia cortado um dedo com o objetivo de receber o seguro, mas nunca nada como um pé e parte da perna.
A primeira sentença, que condenou Vanderley por fraude na primeira instância, saiu em 2024. Sua defesa entrou com recurso, mas, em 2025, o Tribunal de Justiça do Estado (TJ-BA) manteve a condenação. Houve o trânsito em julgado e, em maio, ele foi intimado para cumprir a pena. Agora, não há mais como recorrer.
"É um caso que chama muita atenção pela frieza. Uma fraude de seguro de veículo ou de incêndio são situações mais comuns no nosso dia a dia. Mas a gente está falando de uma lesão à própria pessoa. Chamou atenção por ter sido algo que a gente nunca tinha visto e que vai ter uma sequela pelo resto da vida", diz o advogado Adriano Scattini, da Advocacia Zacarelli, criminalista com 15 anos de atuação no combate aos golpes contra o mercado segurador.
Ele foi um dos profissionais da Advocacia Zacarelli que auxiliou a polícia na elucidação do caso. O escritório representou as seguradoras envolvidas. "A seguradora muitas vezes é vista como uma figura poderosa que nega os sinistros, mas se há pagamento de um sinistro fraudulento, há impacto no fundo comum. É dever da seguradora atuar com as autoridades", acrescenta o advogado, em entrevista nesta terça-feira (16).
Apólices
Segundo a denúncia do MP-BA, a que a reportagem teve acesso, Vanderley fez quatro contratos de apólice de seguros de vida individual e de acidentes pessoais em menos de um mês. A primeira foi com a Tokyo Marine, em 17 de junho, e ele receberia R$ 800 mil em caso de indenização. Dois dias depois, em 19 de junho de 2019, fez um com a Allianz Seguros com uma indenização correspondente a R$ 400 mil.
Já no dia 29 de junho daquele mesmo ano, foi a vez de contratar uma apólice da Zurich Minas Brasil Seguros, que levaria à indenização de R$ 800 mil. Por fim, fez mais uma apólice, com a Sompo Seguros, com indenização correspondente a R$ 100 mil.
"Nesse caso, assim que foi feita a comunicação do sinistro, o analista responsável já presta atenção a alguns detalhes que a gente orienta, como a proximidade da contratação da apólice do dia do evento", analisa Adriano Scattini.
De acordo com ele, é comum que as pessoas que contratam seguro de vida pensem no futuro. No entanto, se ela não tem histórico de contratação - como era o caso - e uma situação como essa ocorre, a história é vista com estranheza. Outro ponto de desconfiança é o valor alto para contratação do seguro, em comparação aos vencimentos de quem contrata. No caso de Vanderley, na época, segundo a investigação, ele recebia R$ 3.564,51 como técnico-administrativo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
"A própria história também era muito estranha, porque ele dizia que foi abordado por duas pessoas que o levaram para um matagal, onde levou alguns golpes e amputaram o pé. Se era meramente um roubo, não teria por que o levarem para um matagal", diz o advogado. Um perito médico também foi contratado para analisar o corte, se seria algo condizente com golpes de facão mesmo.
Ter mais de uma apólice de seguro de vida não é algo incomum, entre contratantes com melhores condições financeiras. Pela legislação brasileira, uma pessoa pode contratar quantos seguros de vida quiser - diferentemente do que acontece na contratação de um seguro de carro, por exemplo. "O que é incomum é quando a pessoa às vezes não dispõe de capacidade financeira (para comprar a apólice), então tem que ver o histórico".
O valor de um seguro também é individualizado e depende de vários fatores - da existência de doenças até os riscos aos quais ela está exposta. Alguém que trabalha como segurança de uma agência bancária, por exemplo, é considerado pelas seguradoras como um contratante mais exposto aos riscos do que um funcionário público.
De acordo com dados divulgados pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) no ano passado, 13,3% dos sinistros ocorridos em 2025 foram considerados suspeitos - eles totalizaram R$5,4 bilhões de R$ 41 bilhões envolvidos. Dos suspeitos, aproximadamente R$ 1,1 bilhão foi efetivamente confirmado como fraude ao longo do ano passado, representando 20,3% dos sinistros com indícios de irregularidades. As fraudes mais comuns são relacionadas a automóveis (34,2%).
Facão
A sequência de acontecimentos narrada por Vanderley tanto à polícia quanto às seguradoras foi de que ele tinha embarcado em um ônibus na Rodoviária de Feira de Santana por volta das 18h30 do dia 9 de agosto de 2019. Ele teria chegado em Cruz das Almas por volta das 20h e, lá, esperou que um amigo o buscasse, mas a pessoa nunca apareceu. Assim, Vanderley disse que decidiu ir até uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), perto do terminal rodoviário de Cruz das Almas. CORREIO/ Crédito: Reprodução

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